Só ele não percebeu que já está perdido. Todos comentam seus olhares, todos notam seu tremor. Só o tonto não entendeu que essa vontade de ficar junto não pode ser outra coisa senão paixão, que não é pura amizade...e agora já foi.
Ele lhe conta como foi seu dia e agüenta as loucurinhas dela como ninguém mais agüenta. Fala como criança, faz manha e não tira as mãos, os olhos e o pensamento dela, nem por um minuto.
Ele vive como se fosse normal sorrir quando sente o cheiro dela na camisa que usou ontem. Ele nem sonha com o fato de já está tão apaixonado a ponto de machucar outras pessoas, machucar quem chegou primeiro. Ele acha que todo o quase que aconteceu antes já passou.
Cego. Não percebe que desliga o celular quando ela chega porque aí não precisa mais da ligação de ninguém. Ingênuo. Não desconfia que, todas as noites antes de dormir, ao refazer na sua mente todas as conversas com ela, está alimentando ainda mais esse sentimento que não para de crescer.
Ele não sabe que ela aguarda que ele enxergue tudo isso, todas as vezes em que comentam os casos dela e o compromisso dele. E ele conta, como se não fosse nada, sua insatisfação e sua dor, compara a outra com ela e nem vê que a outra perde... de lavada!
Ele ignora todos os defeitos dela, mesmo os físicos, mesmo os que ele mesmo comenta. Ele ouve pacientemente as suas histórias chatas, ele se importa, se preocupa. Ele sabe conversar com ela sem lhe olhar o decote e fica sem ação quando a sua boca seca de nervoso, de vontade de beija-la.
Quem assiste se pergunta como é possível alguém não perceber a própria ansiedade para um encontro... ele simplesmente não se toca de que faz de tudo pra ficar a dois centímetros da boca dela.
É quase como se ele não quisesse saber, não como quem se engana e fica esperando passar... não como quem se distrai com chocolate diante de uma cólica chata. Não. Ele não vê tudo isso como se vivesse num universo paralelo com ela. Como se ela fosse um sonho pra onde ele volta quando a vida de verdade fica muito dura. Ela finge que ela é só uma válvula de escape, alguém com quem passar momentos agradáveis, uma anestesia. Enquanto isso ele continua fazendo seus planos, estudando para o vestibular, comprando os classificados aos domingos pra procurar uma cerca branca.
Não se engane, o “bom moço” só é capaz dessas coisas porque ele sabe que ela não tem medo, não tem laços... para ela ele é pouco... diversão... menos que isso.
“Meu medo vai embora quando você me olha...”
(Luciana Mello)
Agora que os preços das lojas vão voltando ao normal e o friozinho da manhã me faz sentir leve e viva, parei pra pensar em porque eu não consigo mais perder cinco minutos do meu dia com um cigarro, porque eu não quero saber, no orkut do meu ex, o que foi que fez ele me esquecer tão rápido... mesmo agora, depois de seis meses.
Não sei o que me faz tentar descobrir porque eu não tenho mais vontade de fazer escova no cabelo, de pintar de uma cor nova todo final de semana... isso me intriga.
Queijo não dá mais prazer, badalação não me convida e as briguinhas, intriguinhas e bobeirinhas, por mais que precisem ser resolvidas, agora não têm pressa. Na verdade, pra isso, eu não tenho pressa. To preferindo guardas as lembranças que tenho do que foi bom a procurar velhos amigos e talvez até amantes com histórias mal resolvidas. Tenho saudades sim e sinto solidão como todo mundo... sou, sou humana sim.
O céu ficando meio laranja traz à memória tantas responsabilidades. Sempre em atraso, sempre correndo. Sempre ouvindo a palavra ‘correndo’ e sempre me irritando com quem a diz. Eu entro no elevador e vejo pessoas atrasadas. Eu vejo os amigos se cumprimentando de longe no metrô. E quando eu estou assim, quando não estou cansada nem dolorida, eu fecho os olhos e penso num chá quente, pantufas e edredom. Estou me esforçando, amigos, estou tentando o mais forte que posso continuar ligada às pessoas, ter tesão no meu trabalho, nos estudos. Estou me esforçando para não usar palavras nem exemplos chulos. Eu não estou me saindo bem, admito, mas fico orgulhosa quando percebo que tentei até o fim. Quase nenhum remorso... algumas feias culpas.
Não conheço ninguém que pelo menos uma vez na vida não tenha tido vontade de jogar tudo pro alto. Não conheço ninguém que não tenha posto tudo a perder por causa de nada ou muito pouco. Não conheço ninguém que o tenha feito tantas vezes quanto eu. Estou sentada sozinha numa sala, com meus afazeres e meus pecados, enquanto tento digitar tão rápido quanto meus pensamentos e mastigar um chiclete de canela.
Minha mente vai a lugares tão longínquos que não posso nem lembrar os nomes. Eu penso em muitas futilidades enquanto tento cumprir com minhas obrigações. Eu penso que podia escrever em 3ª pessoa, que podia ter comprado uma embalagem melhor para um certo presente, eu sinto que podia ter ouvido mais os conselhos do meu pastor e da minha mãe. Eu penso que eu devia ter lutado mesmo por um alguém que eu não queria, só pra ouvir a voz de adolescente que ele ainda tem, agora, do outro lado da linha, só pra faze-lo mudar de guarda-roupas, de apelido. Só pra ter como outra tem. Mas esse é só outro ataque de consumismo, pra curar o ataque de ansiedade e não usar o telefone para o que eu não devo.
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